terça-feira, 8 de dezembro de 2009

02:02

chega essa hora da noite, madrugada adentro, me dá uma saudade de você. fala-se muito das trepadas matinais, mas acho que sempre me apeguei mais às trepadas noturnas, hora inspirada do dia, hora em que as obrigações já foram dormir, mas permanecemos atentos. saudade de ficar conversando contigo até altas horas, até que um lance qualquer, minha perna bate sem querer na tua perna, minha calcinha aparece de relance, tua boca de repente me chama e pronto, não tem mais saída. ou é só o que tem, múltiplas saídas para ir seguindo esse desejo que só faz crescer crescer c r e s c e r. isso faz uma falta, rapaz. não é só a hora da trepada, tem o antes e também o depois. a cama é o nosso refúgio, nossa igreja e nosso samba, nosso desmantelo, nossa preguiça, nosso carinho, até nossas farpas, nosso tesão, nossa timidez, nossa ousadia. depois tem tu tomando banho, a gente conversando besteira na cozinha, o tempo que não tem tempo e somos nós: às vezes me sinto a mulher mais besta do mundo.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

can you hear me?

tenho te amado gostosinho. você tem sido o que eu espero de um homem: simples, carinhoso, dedicado, independente. sei que não és só isso e que não sou também a toda hora essa pessoa satisfeita, mas tenho gostado muito de estar pertinho de tu, de perceber inclusive nossas diferenças. tô muito empenhada em aceitá-las e a não ser uma mulher dura, que cobra demais ou que quer moldar ninguém. meu desafio de vida tem sido esse: aceitar, reconhecer, enxergar as pessoas como um todo, se assim é possível. meu desejo me parece tão autêntico, que até me pego me iludindo em relação às minhas neuroses. continuo, sou limitada, tenho também minhas dificuldades, reconheço-as. não quero que a gente entre num caminho de pedras por incapacidade pessoal minha, embora isso possa ser difícil de se querer. quero poder viver bem contigo, sabendo das nossas limitações, dificuldades, diferenças, quero que a gente se dê bem, com tudo que vier junto. quero ter a alegria de resolver questões e conseguir passar por dificuldades. quero te amar nos momentos complicados. quero ter contigo uma sensação de companheirismo e de parceria de vida. amor, te quero completa, me quero completa, vamos em frente.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

que me perdoem se eu insisto nesse tema

eu te disse muitas coisas e a mesma coisa muitas vezes.
virou ladainha, as palavras se esgotaram na repetição,
teus ouvidos saturados do meu discurso saturado.
cansamos os dois.
eu cansei das palavras e cansei também do teu silêncio.
(resta o quê?).
parecia que eu falava pra paredes. então desacreditei.
você há muito parecia ter desacreditado das minhas ameaças de ir embora.
e tantas vezes eu pensei em ir embora, meu deus. tantas vezes e não fui
[que passei a desacreditar que, de fato, iria]. eu dizia
e algo me dizia assim:
é blefe.
aí tu botava all-in na mesa, dominando o jogo, sabendo que minha mão não era forte.
tu foi fazendo tuas escolhas. e tu fazia o que queria.
toquinho, no rádio, cantava assim:


Que me perdoem se eu insisto neste tema
Mas não sei fazer poema ou canção
Que fale de outra coisa que não seja o amor
Se o quadradismo dos meus versos
Vai de encontro aos intelectos que não usam o coração como expressão

Você abusou, tirou partido de mim, abusou

Tirou partido de mim, abusou
Tirou partido de mim, abusou
Tirou partido de mim, abusou



e vinícius, assim:


Tantas você fez que ela cansou
Porque você, rapaz
Abusou da regra três
Onde menos vale mais
Da primeira vez ela chorou

Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa de perdoar

Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai.
Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo que vai chorar



cansei de perdoar.
desacreditei.
resta o quê?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

seu desejo é uma ordem (ou: sou uma mulher solícita)

você me pediu muitas coisas enquanto estávamos naquela cama e fiz todas, com demasiado gosto, seu desejo é uma ordem, ou, como te disse: sou uma mulher solícita. acho uma beleza satisfazer desejos de homens cheios de graça assim como você. e você não foi nada besta, meu bem, me desarmou com elogios os mais diversos, noite adentro, afora, adiante. isso era o mínimo que eu poderia fazer, te satisfazer, me satisfazer, cair de boca, língua e o escambau, como é bom chegar as vias de fato, da carne, do prazer, do desejo, das delícias.
chupo mordo lambo faço refaço até com certa timidez ousadia às vezes viro desviro morro água gostosa gostoso geme sorrio é só se concentrar desces subo prendo e fico que delícia o tempo não tem tempo noite virando manhã a cama é pequena para nós. depois as pernas tremem, o coração escola de samba, o corpo estirado, uma chuva de suor, teu pau assim caidinho, aquela preguiça dos deuses.

vem, vem quando quiser-mos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

dia sim, dia não

Dia sim, te espero.
Dia não, desespero.
Dia sim, me enganas.
Dia não, me desengano.
Dia sim, me amas, me chamas, me clamas, me cheiras, me comes, me falas.
Dia não, tu te calas.
Dia sim, te ligo.
Dia não, desligas.
Dia sim, eu sinto.
Dia não, me ressinto.
Dia sim, ressuscitas.
Dia não, eu morro.
Dia sim, me procuras, me prometes, te perdôo, nos amamos, nos fartamos.
Dia não, tu enjoas.
Dia sim, eu exausta. Dia sim, eu grito, dia sim eu choro, dia sim abandono, dia sim me esqueço, dia sim adio, dia sin adeus, dia assim é foda,
dia desses desisto.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

uma cabeça, um coração, outras partes

nada de muito grandioso. aquela rotininha rotineira. às vezes um grande saco, em outras, algumas cores. a melhor hora tem sido a viagem de ônibus - quando vou sentada, claro - que é quando eu posso colocar música no ouvido e viajar em pensamentos, sonhos, devaneios. espacinho do dia onde me encontro em meio a um tanto em que me perco. como diria clarice: quero uma verdade inventada.
nada muito grandioso, como já disse. sempre gostei das coisas pequenas. até mesmo das coisas rotineiras - contas, pratos, shampoos - se nelas vejo uma brecha pra qualquer criaçãozinha que seja. gosto de mim para mim - não sei se é gósto, não sei se é gôsto. voltando, talvez a ilusão da não-repetição. calligaris diz: os seres humanos são mestres na repetição.
bom, fato é que pequenas coisas me apetecem, como bem falou o f. pessoa: na vida aquece ser pequeno. hoje tô cheia dos disses e dirias. a gente é mesmo um monte de gente.
e bem sei que o coração quando precisa de um tempo, dá tempo pra gente investir em otras cosas. tô falando a gente, não levem a mal. coisas que realizo com cuidadosa atenção. cosas pequenas, grandes ou médias. e também coisas sem tamanho. sonhar acordada é uma coisa sem tamanho, assim como sorrir para o espelho - ou chorar. e embora a gente viva declarando que não temos tempo, caio me tem feito perceber que: o tempo que temos, se estamos atentos, será sempre exato.
amanhã tem mais um dia. e depois tem outro. e outro.

percebi agora que falei mais das cores. algumas.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

destinatários

Quantas vezes escutei, forçadamente, suas lamentações ao telefone, até minha orelha não mais agüentar, eu querendo dormir, eu querendo viver, eu querendo morrer e você ali, dando sempre um jeito de me prender. Marina Lima aquecendo meus ouvidos depois, pra que eu não esquecesse dos laços, dos nós, das mandingas: O que é que há com nós dois amor? Me responda, depois. Me diz por onde você me prende, por onde foge e o que pretende de mim.

Quantas vezes fiquei me perguntando se era isso mesmo, eu e você, primeiros namorados, até quando? Parecia que faltava algo, clichê que fosse: experiências, pessoas, liberdades. Eu fui, voltei, você ficou. Quando voltei parece que nos perdemos, digo isso sem muito acreditar. Acho que escolhemos nos perder. Pela idade.

Como doeu a porra da primeira vez, quantas tentativas rolaram, lembro-me tanto do “graças a deus” que entoei agudamente assim que o sangue desceu, tinha enfim perdido aquele lacre dos infernos. Você foi compreensivo, querido, como sempre, o tesão era ótimo.

Eu não entendia muito a tua família, eram meio ets, meio zumbis, você não se aproximava, eles não se aproximavam, contatos forçados, não havia muita naturalidade, eu dormia muito na tua casa, mas tua casa era teu quarto. Teu quarto era eu e tu e a solidão que não se nomeia.

Como eu adorava sentar no teu colo, dispensava todas as cadeiras do mundo, desde que você me deixasse sentar em você. Dormir agarrada contigo então, nem se fala. Contigo eu aprendi a gostar de aperto demais, e eles deixavam vestígios na pele, não me importava se no dia seguinte me perguntavam das marcas, no fundo eu pensava: do que adiantaria viver sem deixar rastros?

Tu era um homem de verdade. Tu me fazia mulher. Tu me elogiava na frente dos outros, me levava pra passear no teu carro, colocava no rádio uma música e cantava, me fazendo entender que era pra mim. Mas tu era muito sentimental desnecessariamente. Fazia um bicho por uma merda que eu dissesse. Tu era inseguro e pintava de leonino.

Contigo conheci o mundo dos motéis. Brincávamos que iríamos fazer um Manual dos Motéis, com dicas e apreciações pessoais por cada canto que tínhamos passado.

Não lembro de tu ter brochado comigo alguma vez.

Lembro das primeiras vezes que trepamos, desajeitados, pareciam que tinham tocado salsa e estávamos dançando afoxé. Ríamos, sem jeito, sem graça, sem vergonha. Com a prática viria o ritmo, como aconteceu. Aprendi contigo que intimidade nos leva a um paraíso sexual. Abrir as pernas só melhora.

Não esqueço do primeiro perrengue que passei, achando que podia estar grávida de tu. Só te contei depois. Homem nessas horas só atrapalham. Tu tinha muita vontade de ter uma filha parecida comigo. Tu acreditava nisso, eu acreditava nisso, desacreditar pra que?

Escrevi tantas cartas, bilhetes, te entreguei fotos e o meu amor nelas. Nunca posso me arrepender de ter me envolvido contigo, embora tu fosse um tanto preguiçoso e relaxado. De repente se tornasse pouco para mim, eras menino, eras aquela coisa de sempre, aqueles amigos, aquelas conversas. Não estavas errado. Eu que estava querendo remexer-me.

Fiquei na merda por causa de tu, varei noites e dias procurando sinais, e nada. Me escanteasse, me deixasse no limbo, sufocada, incompreendida, apaixonada. Sem nunca ter me dado um fora, sem ter me dado um não.

Fizesse eu saber que tu ainda gostava da outra, que ela te procurava incessantemente e que tu sofria por ela.

Nunca fui num motel contigo, a gente sarrava tanto na rua, na praia, no escuro.

Brochasse umas duas ou três vezes, acho.

Me apaixonei e desapaixonei mais do que isso. Cantamos tanto Caetano.

Ademais, chorei tanto, fiquei muda, bebi todas, fui compreensiva, te dei um abraço, te entendo, te odeio, te quero, te esqueci, me mudei, apaguei teu número, teu rosto, teu pinto, teu cheiro, não apaguei foi nada, amei, amei e amei, gozei tanto, nos dias de chuva nem se fala, dancei axé, forró, pagode, sambei horrores, não conseguia chorar, assisti filme, dormi a tarde inteira, tive insônia, escrevi.